sábado, 27 de outubro de 2012

Os meus 35 anos com Salazar - A íntima convivência com ditador

Reportagem feita em 2006, publicada: Revista Mulher Moderna

 Foi um prazer "conversar" com a Sra. Maria da Conceição... Lembrou-me que na altura fiquei completamente rendida ao seu ar doce...Durante horas, falou de um "Salazar" amigo, amável e em alguns momentos carinhoso... um Salazar que é difícil de acreditar que existiu!

Maria da Conceição estava sentada numa cadeira sob o olhar atento e paternal de António Oliveira Salazar quando um homem à sua frente preparava-se para tirar uma fotografia. Com apenas 7 anos, a menina surgiu na capa do jornal O Século, com aquele que ela gostava de chamar de "senhor doutor". Nenhum laço os unia apenas um sentimento de afecto e carinho que ambos partilhavam. Aos 6 anos, Maria da Conceição de Melo Rita passou a conviver diariamente com o homem que Portugal mais temia. O seu tutor, por "quem tem uma admiração incontestável", é agora a personagem principal do seu livro de memórias, onde a jovem de 78 anos desvenda o seu quotidiano até agora desconhecido: desde as histórias contadas por Salazar na hora do dormir, aos gostos gastronómicos do criador do Estado Novo, como as raras confissões sobre política quando passeavam pelos jardins de S. Bento. "Acompanhei-o assim até ao fim da vida dele". Auxiliada pelo jornalista, Joaquim Vieira, em cerca de 200 páginas, Maria da Conceição dá o seu depoimento único e histórico, relatando o seu percurso junto do seu "pai adoptivo", até ao dia em que não o pode mais acompanhar...

  O primeiro dia na casa do "Sr. Doutor"
"Foi no fins de Abril de 1935, que a minha cunhada, casada com o meu irmão mais velho chamado José, foi pedir à irmã dela, a governanta Maria Jesus Freire, para me deixar ficar uns dias lá em casa. Tinha então 6 anos. Durante aqueles dias, afeiçoei-me a tudo. Quando quiseram que regressasse não quis, já estava habituada à maneira terna como o Dr. Salazar me tratava. Primeiro fiquei a viver na Rua Bernardo Lima e depois fomos para a residência oficial de S. Bento".
  "A governanta"
Recordou a Maria de Jesus Freire como uma pessoa muito austera, implacável, era uma pessoa que gostava que fosse tudo feito à sua maneira, não era má, só exigente demais".

  O nome “Micas”
"O Dr. Salazar achava que o meu nome Maria Conceição era muito comprido então deu-me a escolher ou “Micas” ou “Maria Pequena”, optei pelo primeiro e assim fiquei toda a vida.

O Fascínio pelo "pai adoptivo"
"Gostava muito da sua maneira de ser e da vida simples que tinha, era uma pessoa que se distanciava das grandes multidões, não gostava de estar em contacto com o público. Mas ao mesmo tempo era terno (aconchegava-me os cobertores à noite, contava-me histórias para dormir) como era rigoroso no que dizia respeito à escola. Foi como um pai, o meu protector".

  A economia doméstica
"Havia o espírito da poupança, a governanta fazia-me os vestidos aproveitando antigos roupões... Mandou fechar todos os pertences do Palácio de São Bento pois achava que aquilo era do Estado e como tal não se devia utilizar. Todas as decisões passavam pelo 'doutor' menos os afazeres domésticos". Os passeios nos Jardins de S. Bento "Nos nossos passeios nocturnos conversávamos sobre a minha rotina, os meus estudos o que tinha feito ao longo do dia, por vezes surgia o assunto política. Dizia-me que queria manter o controlo sobre as nossas colónias, mas sabia que após a sua morte iriam querer a independência. Considerava que aqueles povos não estavam preparados para essa etapa. Se pudesse voltar atrás no tempo, talvez tivesse conversado mais abertamente sobre este assunto".

  O atentado de 1937
A 14 de Julho o conhecido anarquista Emídio Santana, com outros companheiros, organizou um atentado bombista contra Salazar, que não teve êxito. "Ainda estava na casa da Rua Bernardo Lima quando tudo aconteceu. Encontrava-me na missa, na antiga igreja de Santa Marta, quando entrou uma pessoa a dizer que o 'doutor Salazar' tinha sofrido um atentado. Fomos de imediato para casa. Quando chegou a casa, calmo como nada se tivesse passado, apenas trazia o fato salpicado de areia, agarrei-me a ele e disse: 'Não quero que o Senhor Doutor morra', passou-me a mão pela cabeça e disse: 'está descansada que nada me vai acontecer'".

  As escassas amizades
 "Tinha pouco tempo para as amigas, como vivia numa casa que não era minha tinha vergonha de levá-las até lá... uma questão de respeito. Fui feliz à minha maneira, estava habituada aquela época, mas admito que tive uma infância um pouco solitária".

  A candidatura do General Humberto Delgado e o seu posterior assassinato
 Em 1958, o General participou nas eleições presidenciais contra o almirante Américo Tomás (apoiado por Salazar), acabando por ser derrotado graças à gigantesca fraude eleitoral, montada pelo regime. Sete anos depois, um comando da PIDE, liderado por Rosa Cavaco, assassina-o a tiro, bem como a sua secretária. Salazar veio a público afirmar que nada tinha a ver com tal acto. "Em 1957 casei no Palácio de São Bento, onde também se fez a boda. Um ano depois nasceu o meu primeiro filho, António que foi apadrinhado pelo "doutor" e mais tarde a minha segunda filha, Margarida. Apesar de estar ocupada com a maternidade, lembrou-me perfeitamente das eleições passarem despercebidas, pois Salazar tinha mais apoiantes. Os anos passaram e quando se soube da morte do general, o 'doutor' ficou abalado como as coisas se tinham processado. Tenho a certeza que ele não sabia de nada".

  Últimos anos da década de 50 início dos anos 60
 Vários acontecimentos políticos ocorrem nesta época. Henrique Galvão desvia o paquete Santa Maria, começa a guerra em Angola, Salazar tenta acabar com a rebelião dentro do seu executivo (o seu Ministro de Defesa, Botelho Moniz, lidera um golpe de Estado que não deu certo). "Nesta altura, o Dr. Salazar começou a trazer as preocupações para o seio familiar. Apesar de já não viver com ele visitava-o quase todos os dias. Encontrava-o preocupado mas nunca falou destes assuntos".

  Os objectos herdados
"Guardo com muito carinho uma medalha de ouro com a imagem da Nossa Senhora que me ofereceu, mas também dava-me coisas extravagantes. Houve uma vez, que foi presenteada com uma pele de cobra com a qual o meu marido revestiu uma mala. Ele era muito amável".

  A queda do criador do Estado Novo
"Quando adoeceu visitava-o todos os dias, havia uns momentos que estava inconsciente e outros lúcidos e nesses sempre me reconheceu. Mas acho que tinha a noção de que algum não estava a correr bem".

  O livro 
Contando com a ajuda do escritor Joaquim Vieira, e da filha Margarida, pessoa importante neste processo, Maria da Conceição de Melo Rita resolveu passar as suas memórias para o papel. Foram longos os serões, onde a "filha adoptiva" regressou ao passado e visitou em pensamento os Jardins de S. Bento... Tudo em nome da família. "O meu livro é apenas um testemunho só isso, primeiramente deixado para os meus filhos e netos e agora para todos os portugueses. Não pretendo virar a história em favor do "doutor" mas apenas falar de um Salazar em privado, onde a voz é aquela que habitou na mesma residência ao longo de mais vinte anos e a frequentou outros quinze. Para mim e para os meus filhos sempre foi muito bom, tenho por ele uma admiração incontestável".

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